Difícil criar campeões quando metade do ano é intervalo
Nenhum setor tem a capacidade de unir um país, educar uma geração e projetar uma identidade internacional tão rapidamente como o desporto. Quando existe uma estratégia clara, o desporto torna-se motor de mobilidade social, fonte de emprego, plataforma de diplomacia e espelho do que um país ambiciona ser. Quando não existe, fica reduzido a episódios emocionantes, mas passageiros. É por isso que vale a pena discutir, com profundidade, o papel que o desporto pode e deve desempenhar no futuro de Cabo Verde. E nunca como agora tivemos um contexto tão favorável para iniciar esse debate, onde os sucessos recentes das nossas seleções transformaram uma reflexão que podia parecer abstrata numa urgência concreta, numa oportunidade real de transformar entusiasmo momentâneo em mudança estrutural.
No entanto, para transformar essa oportunidade em algo mais do que inspiração coletiva, é preciso olhar de frente para a forma como o desporto está organizado no país. Os resultados internacionais deram visibilidade ao potencial dos nossos atletas, mas também tornaram impossível ignorar as fragilidades de um sistema que não acompanha a ambição que agora projetamos. O que antes podia ser visto como um detalhe técnico, calendários desajustados, competições demasiado curtas, dependência excessiva das câmaras municipais e estruturas sem profissionalização, tornou-se, de repente, parte central da discussão sobre o futuro do desporto cabo-verdiano. É neste ponto que o entusiasmo se encontra com a responsabilidade: se queremos que os feitos recentes sejam o início de algo maior, precisamos de reconhecer que a base sobre a qual construímos ainda não é sólida o suficiente para sustentar o salto que demos.
Poucos gostam de discutir isto, mas é incontornável. Em praticamente todas as modalidades temos federações, depois dez a doze associações regionais, e um modelo competitivo que não responde às exigências do desporto moderno. Os campeonatos regionais, que deveriam ser motores de desenvolvimento, estendem-se por cinco ou seis meses, enquanto os campeonatos nacionais, supostamente o ponto alto da época, duram pouco mais de um mês. Isto significa que atletas e clubes passam metade do ano à espera, em vez de competir, significa que treinadores não conseguem planear épocas completas, significa que não existe calendário suficiente para criar receitas, atrair patrocinadores ou justificar investimentos. Este sistema, que já teve o seu tempo, hoje bloqueia a evolução do país.
Apesar de tudo isto ser amplamente reconhecido nos bastidores, o país continua a funcionar com um desporto que depende mais da boa vontade e da resiliência dos seus agentes do que de estruturas estáveis. Chegámos a um ponto em que o talento dos atletas e a dedicação dos treinadores já não conseguem compensar a ausência de profissionalização nas federações, nas associações e nos clubes. A gestão permanece, em grande medida, assente no voluntarismo; os calendários são definidos sem visão de longo prazo; e a própria organização das competições carece de critérios técnicos que garantam evolução contínua. Esta informalidade estrutural era tolerável enquanto o país se mantinha longe dos grandes palcos internacionais. Agora, com a visibilidade que conquistámos, tornou-se um obstáculo evidente. Se queremos acompanhar o salto dado dentro do campo, precisamos de um salto equivalente fora dele.
A ginástica ofereceu-nos, há poucos dias, um exemplo dolorosamente claro do que significa manter um sistema desportivo assente no improviso. A atleta Dara Pinto qualificou-se para a final do Guimagym Cup, em Portugal, após uma prestação notável, e acabou impedida de competir porque a federação não renovou a sua licença. Um “lapso administrativo”, como foi assumido, que não apenas frustrou uma carreira jovem em ascensão, como expôs uma realidade que atravessa várias modalidades, com processos básicos que falham, atletas que treinam sem condições mínimas, treinadores que dependem de favores para garantir espaços de treino, federações que comunicam mal e tardiamente, e uma cultura organizativa que normaliza o erro em vez de o prevenir. Este episódio não é exceção, é sintoma. E enquanto continuarmos a tratar o desporto com esta leveza institucional, continuaremos a pedir aos nossos atletas que compitam num mundo que exige profissionalismo absoluto com estruturas que ainda funcionam como se estivéssemos a meio do século passado.
O amadorismo trouxe-nos até aqui com dignidade. O que falta agora é o passo seguinte, transformar a paixão em estrutura. O Mundial será, no fundo, o primeiro grande teste ao nosso sistema. Um torneio desta dimensão exige logística profissional, análise contínua, planeamento de detalhe, rotinas de alto rendimento, recuperação física rigorosa e uma maturidade institucional que não se constrói em três meses. E, no entanto, continuamos a pedir aos nossos jogadores que alternem entre meses de competição e meses de vazio, como se o talento fosse suficiente para compensar a ausência de um ecossistema desportivo funcional. Não é. O talento é o nosso ouro, mas precisa de chão firme onde pousar.
Esta fragilidade estrutural manifesta-se não apenas no calendário competitivo, mas também no modo como o país financia e sustenta as suas modalidades. Em Cabo Verde, o financiamento desportivo resulta de um quadro partilhado de responsabilidades que envolve o Governo central, o Instituto do Desporto e da Juventude e as autarquias locais, enquadrado por um conjunto de instrumentos legais e programáticos. Ainda assim, na prática, são as câmaras municipais que assumem um peso determinante na construção e manutenção das infraestruturas, bem como no apoio direto aos clubes e associações. Este modelo, apesar de ter sido fundamental para garantir a sobrevivência do sistema até hoje, revela limitações evidentes: não assegura previsibilidade financeira, dificulta o planeamento de médio e longo prazo, não cria incentivos claros à profissionalização e continua a afastar investimento privado estruturado. Sem uma articulação mais eficaz entre níveis de governação e uma estratégia nacional coerente, o desporto acaba por depender excessivamente de contextos orçamentais locais, ficando exposto a ciclos políticos e constrangimentos que pouco têm a ver com a ambição que o país projeta no plano desportivo.
Se queremos transformar o desporto num verdadeiro motor de desenvolvimento, então precisamos de ir mais longe. O país necessita de um novo pacto para o desporto, que envolva o Estado central, o setor privado, a diáspora e naturalmente as autarquias, mas já não com estas últimas a suportarem quase sozinhas todo o sistema. A qualificação para o Mundial deu-nos uma visibilidade inédita e uma capacidade de mobilização rara, mas este impulso não se traduzirá em progresso se permanecermos presos a um modelo que não permite profissionalizar quadros, contratar especialistas, planear épocas completas, modernizar clubes ou garantir competições regulares ao longo do ano.
O que está em causa é mais do que conquistas desportivas. É uma questão de desenvolvimento nacional. Cabo Verde tem capital humano, talento, ambição e uma diáspora que abre portas no mundo inteiro. Falta-lhe, contudo, um ecossistema de parcerias que traga para o país a experiência que ainda não possuímos, falta-lhe estabilidade financeira, e falta-lhe a coragem coletiva para enfrentar o que tem de ser mudado: o calendário, as infraestruturas, a gestão das federações, a formação dos quadros e, acima de tudo, a forma como o país pensa o desporto enquanto instrumento de progresso económico, social e diplomático.
Chegou o momento em que precisamos de assumir que não basta celebrar, temos de construir. Podemos continuar a viver da emoção imediata ou podemos transformar este momento numa viragem estrutural. Se fizermos o que é necessário, reformar o calendário, profissionalizar as estruturas, diversificar o financiamento, reforçar as infraestruturas e criar um plano nacional para o desporto, então esta presença no Mundial deixará de ser uma exceção brilhante e passará a ser um ponto de partida.
O país já provou que pode competir com os melhores, agora precisa provar que pode organizar-se como os melhores. A paixão trouxe-nos até aqui, mas será a profissionalização que nos levará para onde nunca estivemos. O desporto cabo-verdiano tem futuro, mas esse futuro só existirá se tivermos a coragem de o construir. Hoje, mais do que nunca, Cabo Verde precisa de um desporto que funcione doze meses por ano, e de uma estrutura capaz de converter feitos extraordinários em evolução permanente.
Como lembrou Jesse Owens, um dos maiores atletas de sempre: “Todos temos sonhos. Mas para que os sonhos se tornem realidade, é preciso muita determinação, dedicação, autodisciplina e esforço.” O desafio do desporto cabo-verdiano é exatamente esse, transformar o sonho em estrutura e a ambição em caminho.