LENDA DAS BANCADAS
CRÓNICAS DO FUTEBOL CABO-VERDIANO (por Danielson Barros)LENDA DAS BANCADASNHA KAPA — JOÃO BARROS JÚNIORHoje, nas nossas Crónicas do Futebol Cabo-Verdiano, não vamos falar de golos, de treinadores, de transferências ou de títulos.Hoje vamos falar de um senhor do desporto cabo-verdiano.Um homem do mar , conhecido pelos mais achegados simplesmente como Nha Kapa.O seu nome é João Barros Júnior.Um homem simples, manso, calmo, sábio, amigo e, acima de tudo, um grande pai de família. Um homem profundamente querido por todos aqueles que convivem com ele no mundo do futebol e, particularmente, nas bancadas do Estádio da Várzea.Nha Kapa é muito mais do que um adepto. É uma personagem do nosso futebol. É uma presença. É uma voz. É uma paixão. É uma memória viva das bancadas.LENDA DAS BANCADASPara muitos de nós, e para mim particularmente, Nha Kapa é um dos melhores adeptos de Cabo Verde.Travadorense de corpo e alma, sócio, dirigente e adepto incondicional dos Travadores, este homem dedicou grande parte da sua vida ao clube que ama.Mas a paixão de Nha Kapa nunca ficou limitada às cores dos Travadores.Ele é também um verdadeiro tubarão azul de sangue , um daqueles adeptos que estão sempre na linha da frente quando a nossa Seleção Nacional entra em campo.É daqueles homens que não precisam de convite para apoiar.Basta haver futebol.Basta haver uma equipa da nossa terra.Basta haver uma camisola cabo-verdiana.E lá está Nha Kapa.UM ADEPT0 DE TODOSQuem conhece Nha Kapa sabe que o seu amor pelo futebol vai muito além da rivalidade clubística.Quando uma equipa da nossa região disputa o Campeonato Nacional, ele apoia.Boavista, Académica e outras equipas sabem perfeitamente o significado da sua presença nas bancadas.Até o nosso maior rival, o Sporting da Praia, conhece bem este homem e sabe que está perante um adepto diferente: apaixonado, vibrante e verdadeiro.Porque Nha Kapa pode ter uma camisola no coração, mas tem o futebol cabo-verdiano inteiro na alma.O HOMEM DO MAR E DO DESPORTOConhecido também no seu meio profissional como o dono do rebocador da ENAPOR, Nha Kapa é um verdadeiro homem do mar.Mas há uma outra faceta deste homem que merece ser lembrada.É também um grande artesão.Com as próprias mãos, trabalha e confecciona rédeas gigantes utilizadas nos exercícios dos estivadores, demonstrando que por trás daquele adepto apaixonado existe também um homem trabalhador, habilidoso e dedicado. E A PAIXÃO PELO VARANDA FCE como se tudo isto já não fosse suficiente, Nha Kapa é também Varandino de corpo e alma.Adepto e sócio do Varanda FC, onde integra a equipa veterana dos 50+, continua a viver o futebol dentro e fora das quatro linhas.É precisamente isso que torna Nha Kapa tão especial.Ele não vive o futebol apenas aos domingos.Ele vive o futebol como parte da sua própria identidade.UMA HISTÓRIA QUE NÃO APAGA UMA VIDAHouve momentos em que dirigentes da Seleção Nacional chegaram a associar o seu nome a uma suposta invasão.Independentemente das circunstâncias e das interpretações que possam existir, considero que foram infelizes algumas narrativas envolvendo um homem cuja dedicação ao futebol cabo-verdiano é conhecida por quem realmente acompanha as bancadas.O futebol tem destas coisas.Muitas vezes, quem está na linha da frente, quem apoia, quem sofre, quem viaja, quem grita e quem dá a cara nem sempre é devidamente valorizado.Mas nenhuma narrativa apaga aquilo que Nha Kapa representa para aqueles que convivem diariamente com ele.Porque uma vida inteira dedicada ao futebol não se apaga por um episódio.UMA LENDA VIVANha Kapa representa uma geração de adeptos que transformaram as bancadas em parte da história do nosso futebol.Homens que não procuram fama.Não procuram protagonismo.Não procuram reconhecimento.Apenas amam o futebol.E talvez seja precisamente por isso que são tão importantes.Hoje, no dia do seu aniversário, queremos dizer:OBRIGADO, NHA KAPA! Obrigado por tudo o que representas para os Travadores.Obrigado por tudo o que representas para o Varanda FC.Obrigado pelo apoio à Seleção Nacional.Obrigado pelo carinho às equipas da nossa região.Obrigado pela tua presença nas bancadas.Obrigado pela tua paixão.Obrigado pela tua amizade.Obrigado por representares tão bem a Achada Santo António e o futebol cabo-verdiano.Hoje não celebramos apenas mais um aniversário.Celebramos uma história.Celebramos um homem.Celebramos um adepto.Celebramos uma paixão.Celebramos uma identidade.⸻ NHA KAPA — LENDA DAS BANCADAS Que Deus te conceda muitos mais anos de vida, saúde, paz e força para continuares a fazer aquilo que mais amas: viver e apoiar o futebol.Porque enquanto houver futebol nas bancadas da Várzea, haverá sempre uma voz, uma presença e uma paixão que ninguém consegue ignorar.Nha Kapa, és parte da história das nossas bancadas.Feliz aniversário, Lenda! Achada Santo António orgulha-se de ti.O futebol cabo-verdiano agradece-te.NHA KAPA — UMA LENDA DAS BANCADAS.
Gratidão, orgulho e esperança
Hoje chegou ao fim a nossa participação na competição de Voleibol de Praia, em Alexandria Egipto. Fica, naturalmente, aquela sensação de que poderíamos ter ido mais longe. Mas, acima de tudo, fica o orgulho pelo caminho que construímos, pela nossa entrega e por tudo aquilo que conseguimos conquistar Janice Varela #irmãs_varela.Ao mesmo tempo, não posso deixar de manifestar a minha preocupação com o sistema de qualificação africano. Acredito que competições desta dimensão devem ser pautadas pela transparência, pelo mérito e pela igualdade de oportunidades. A realização dos jogos sem um sorteio claro e a definição prévia de determinados cruzamentos levantam sérias preocupações e merecem uma maior supervisão por parte da FIVB. Digo isso porque sentimos na pele situações que, na minha perspetiva, prejudicam o trabalho e o mérito das equipas. Acreditamos que nenhuma equipa deve ser favorecida ou colocada em vantagem para proteger determinadas seleções. O mérito, a justiça e o respeito pelo trabalho de cada atleta devem sempre prevalecer.Apesar de tudo, fizemos um excelente percurso um desempate de 2 a 1 com Moçambique, ganhamos um 2 a 0 contra a Tunísia, ganhamos mais um jogo 2 a 0 contra Gâmbia e tomamos uma derrota 2-0 com outra equipa de Moçambique (21-19 onde fomos roubados 2 pontos pela arbitragem, neste set decisivo) e outro set de 21-15 justo). E assim continuamos a acreditar que o nosso sonho está cada vez mais próximo. Hoje, Cabo Verde é respeitado no Voleibol de Praia. Já não ficamos para trás. Somos bicampeões da Zona II (Costa Ocidental da África), algo inédito nos últimos quatro anos, alcançámos uma vez as meias-finais da qualificação olímpica e, nesta competição, chegámos até aos oitavos de final, demonstrando a nossa evolução e competitividade.Com investimento contínuo, trabalho e determinação, acredito que temos grandes possibilidades de chegar à Copa do Mundo não desta vez 2027 mas o de 2029 e aos Próximos Jogos Olímpicos 2032 (que poderá ser representada por duplas caboverdianas) Quero deixar também os meus parabéns às equipas medalhadas:Nigéria – qualificada para os Jogos OlímpicosMarrocosMoçambiqueParabéns pelo trabalho e pela conquista!Um agradecimento muito especial à Federação Cabo-Verdiana de VoleiBol , na pessoa do seu Presidente, Rodrigues Antonio Carlos, pelo investimento que tem vindo a fazer no nosso voleibol e, particularmente, no Voleibol de Praia. Os resultados mostram que estamos no caminho certo. Pela primeira vez a Federação conseguiu realizar dois circuitos mundiais na praia de Laginha em dois anos consecutivos 2025 e 2026, ficando marcada na história de Cabo Verde. A minha profunda gratidão também ao nosso treinador brasileiro, Márcio Araújo , que integra connosco o projeto Empowerment do Voleibol de Praia da FIVB. O seu trabalho, dedicação e experiência têm sido fundamentais para o nosso crescimento. A nossa fisioterapeuta Fátima Tavares que nos manteve prontas durante toda a competição. O nosso manager de volei de praia Luciano Jorge Faria e colegas de luta Masculina Admilson Brito Melo e Ivan Cristian. E, acima de tudo, obrigada a Deus e aos meus familiares (minha eterna dupla de sangue Janice Varela). Ao Ministério Desporto, Comité Olímpico Cabo-verdiano , Instituto do Desporto e da Juventude, Garantia Seguros e a todos os que nos apoiam, acreditam em nós e contribuem, de uma forma ou de outra, para que este sonho continue vivo. Ps: investir em duas duplas para essas competições também será crucial para aumentar chances de vitórias e qualificações. È de reelembrar ainda que graças ao nosso ranking de pontos a nível internacional as nossas duplas femininas tiveram a chance de jogar os Jogos Olímpicos da Juventude no sub 18. Hoje termina uma competição, mas não termina o sonho.Continuaremos a trabalhar. Continuaremos a acreditar. O momento de Cabo Verde chegará. Gratidão!
Paulo VeigaUm Novo Pacto para o Desporto Cabo-Verdiano
Difícil criar campeões quando metade do ano é intervaloNenhum setor tem a capacidade de unir um país, educar uma geração e projetar uma identidade internacional tão rapidamente como o desporto. Quando existe uma estratégia clara, o desporto torna-se motor de mobilidade social, fonte de emprego, plataforma de diplomacia e espelho do que um país ambiciona ser. Quando não existe, fica reduzido a episódios emocionantes, mas passageiros. É por isso que vale a pena discutir, com profundidade, o papel que o desporto pode e deve desempenhar no futuro de Cabo Verde. E nunca como agora tivemos um contexto tão favorável para iniciar esse debate, onde os sucessos recentes das nossas seleções transformaram uma reflexão que podia parecer abstrata numa urgência concreta, numa oportunidade real de transformar entusiasmo momentâneo em mudança estrutural.No entanto, para transformar essa oportunidade em algo mais do que inspiração coletiva, é preciso olhar de frente para a forma como o desporto está organizado no país. Os resultados internacionais deram visibilidade ao potencial dos nossos atletas, mas também tornaram impossível ignorar as fragilidades de um sistema que não acompanha a ambição que agora projetamos. O que antes podia ser visto como um detalhe técnico, calendários desajustados, competições demasiado curtas, dependência excessiva das câmaras municipais e estruturas sem profissionalização, tornou-se, de repente, parte central da discussão sobre o futuro do desporto cabo-verdiano. É neste ponto que o entusiasmo se encontra com a responsabilidade: se queremos que os feitos recentes sejam o início de algo maior, precisamos de reconhecer que a base sobre a qual construímos ainda não é sólida o suficiente para sustentar o salto que demos.Poucos gostam de discutir isto, mas é incontornável. Em praticamente todas as modalidades temos federações, depois dez a doze associações regionais, e um modelo competitivo que não responde às exigências do desporto moderno. Os campeonatos regionais, que deveriam ser motores de desenvolvimento, estendem-se por cinco ou seis meses, enquanto os campeonatos nacionais, supostamente o ponto alto da época, duram pouco mais de um mês. Isto significa que atletas e clubes passam metade do ano à espera, em vez de competir, significa que treinadores não conseguem planear épocas completas, significa que não existe calendário suficiente para criar receitas, atrair patrocinadores ou justificar investimentos. Este sistema, que já teve o seu tempo, hoje bloqueia a evolução do país.Apesar de tudo isto ser amplamente reconhecido nos bastidores, o país continua a funcionar com um desporto que depende mais da boa vontade e da resiliência dos seus agentes do que de estruturas estáveis. Chegámos a um ponto em que o talento dos atletas e a dedicação dos treinadores já não conseguem compensar a ausência de profissionalização nas federações, nas associações e nos clubes. A gestão permanece, em grande medida, assente no voluntarismo; os calendários são definidos sem visão de longo prazo; e a própria organização das competições carece de critérios técnicos que garantam evolução contínua. Esta informalidade estrutural era tolerável enquanto o país se mantinha longe dos grandes palcos internacionais. Agora, com a visibilidade que conquistámos, tornou-se um obstáculo evidente. Se queremos acompanhar o salto dado dentro do campo, precisamos de um salto equivalente fora dele.A ginástica ofereceu-nos, há poucos dias, um exemplo dolorosamente claro do que significa manter um sistema desportivo assente no improviso. A atleta Dara Pinto qualificou-se para a final do Guimagym Cup, em Portugal, após uma prestação notável, e acabou impedida de competir porque a federação não renovou a sua licença. Um “lapso administrativo”, como foi assumido, que não apenas frustrou uma carreira jovem em ascensão, como expôs uma realidade que atravessa várias modalidades, com processos básicos que falham, atletas que treinam sem condições mínimas, treinadores que dependem de favores para garantir espaços de treino, federações que comunicam mal e tardiamente, e uma cultura organizativa que normaliza o erro em vez de o prevenir. Este episódio não é exceção, é sintoma. E enquanto continuarmos a tratar o desporto com esta leveza institucional, continuaremos a pedir aos nossos atletas que compitam num mundo que exige profissionalismo absoluto com estruturas que ainda funcionam como se estivéssemos a meio do século passado.O amadorismo trouxe-nos até aqui com dignidade. O que falta agora é o passo seguinte, transformar a paixão em estrutura. O Mundial será, no fundo, o primeiro grande teste ao nosso sistema. Um torneio desta dimensão exige logística profissional, análise contínua, planeamento de detalhe, rotinas de alto rendimento, recuperação física rigorosa e uma maturidade institucional que não se constrói em três meses. E, no entanto, continuamos a pedir aos nossos jogadores que alternem entre meses de competição e meses de vazio, como se o talento fosse suficiente para compensar a ausência de um ecossistema desportivo funcional. Não é. O talento é o nosso ouro, mas precisa de chão firme onde pousar.Esta fragilidade estrutural manifesta-se não apenas no calendário competitivo, mas também no modo como o país financia e sustenta as suas modalidades. Em Cabo Verde, o financiamento desportivo resulta de um quadro partilhado de responsabilidades que envolve o Governo central, o Instituto do Desporto e da Juventude e as autarquias locais, enquadrado por um conjunto de instrumentos legais e programáticos. Ainda assim, na prática, são as câmaras municipais que assumem um peso determinante na construção e manutenção das infraestruturas, bem como no apoio direto aos clubes e associações. Este modelo, apesar de ter sido fundamental para garantir a sobrevivência do sistema até hoje, revela limitações evidentes: não assegura previsibilidade financeira, dificulta o planeamento de médio e longo prazo, não cria incentivos claros à profissionalização e continua a afastar investimento privado estruturado. Sem uma articulação mais eficaz entre níveis de governação e uma estratégia nacional coerente, o desporto acaba por depender excessivamente de contextos orçamentais locais, ficando exposto a ciclos políticos e constrangimentos que pouco têm a ver com a ambição que o país projeta no plano desportivo.Se queremos transformar o desporto num verdadeiro motor de desenvolvimento, então precisamos de ir mais longe. O país necessita de um novo pacto para o desporto, que envolva o Estado central, o setor privado, a diáspora e naturalmente as autarquias, mas já não com estas últimas a suportarem quase sozinhas todo o sistema. A qualificação para o Mundial deu-nos uma visibilidade inédita e uma capacidade de mobilização rara, mas este impulso não se traduzirá em progresso se permanecermos presos a um modelo que não permite profissionalizar quadros, contratar especialistas, planear épocas completas, modernizar clubes ou garantir competições regulares ao longo do ano.O que está em causa é mais do que conquistas desportivas. É uma questão de desenvolvimento nacional. Cabo Verde tem capital humano, talento, ambição e uma diáspora que abre portas no mundo inteiro. Falta-lhe, contudo, um ecossistema de parcerias que traga para o país a experiência que ainda não possuímos, falta-lhe estabilidade financeira, e falta-lhe a coragem coletiva para enfrentar o que tem de ser mudado: o calendário, as infraestruturas, a gestão das federações, a formação dos quadros e, acima de tudo, a forma como o país pensa o desporto enquanto instrumento de progresso económico, social e diplomático.Chegou o momento em que precisamos de assumir que não basta celebrar, temos de construir. Podemos continuar a viver da emoção imediata ou podemos transformar este momento numa viragem estrutural. Se fizermos o que é necessário, reformar o calendário, profissionalizar as estruturas, diversificar o financiamento, reforçar as infraestruturas e criar um plano nacional para o desporto, então esta presença no Mundial deixará de ser uma exceção brilhante e passará a ser um ponto de partida.O país já provou que pode competir com os melhores, agora precisa provar que pode organizar-se como os melhores. A paixão trouxe-nos até aqui, mas será a profissionalização que nos levará para onde nunca estivemos. O desporto cabo-verdiano tem futuro, mas esse futuro só existirá se tivermos a coragem de o construir. Hoje, mais do que nunca, Cabo Verde precisa de um desporto que funcione doze meses por ano, e de uma estrutura capaz de converter feitos extraordinários em evolução permanente.Como lembrou Jesse Owens, um dos maiores atletas de sempre: “Todos temos sonhos. Mas para que os sonhos se tornem realidade, é preciso muita determinação, dedicação, autodisciplina e esforço.” O desafio do desporto cabo-verdiano é exatamente esse, transformar o sonho em estrutura e a ambição em caminho.