Zé Lata Lete, o nome consagrado do atletismo cabo-verdiano à espera do reconhecimento do Estado
De nome oficial José Correia, menino de Achada de Santo António, popularizou-se como Zé Lata Lete e mostrou a sua destreza no atletismo cabo-verdiano, modalidade na qual se estreou em 1973 com o ícone do atletismo crioulo “Scarafi”, para a partir de 1976 até 1980, tornar-se rei e senhor do atletismo neste arquipélago.
Representou Cabo Verde em grandes provas de fundo, 15 mil, 10 e cinco mil metros, dessa altura, em países como Guiné Bissau, Angola e antiga União Soviética, tendo ainda conhecido países outros como Portugal, Inglaterra (Londres e Manchester) e Senegal.
Na sua primeira aparição no mundo do atletismo, com apenas 18 anos de idade, correu o São Silvestre da Praia, promovida pela então Companhia de Caçadores das Forças Armadas Portuguesa, e surpreendeu o mundo do atletismo cabo-verdiano ao classificar-se logo no segundo lugar na prova dos 10 quilómetros, suplantado apenas por “Scarafi”.
Daí, ganhou o gosto pela modalidade, intensificou as técnicas de treinamento com especialistas/professores de Educação física como Rui Atanásio e posteriormente Osvaldo “Vává Duarte”, figura que emprestou o seu nome ao pavilhão desportivo da cidade da Praia, para, de 1976 a 1980, dominar todas as provas de atletismo realizada no país.
Palmarés internacional

Recorda ainda hoje que ao logo desse período em que conquistou o trono ao Scarafi, de quem foi e continua ainda hoje a ser o seu fiel admirador, venceu todos os atletas que marcava a sua geração, na qual prontificava nomes como como Zé Alfama Cabral ou simplesmente Zé di Mamina, tendo perdido uma única corrida no 1º de Maio, por um atleta que respondia por Marcelino.
É que, para além de ter conquistado a paixão pelo mundo do atletismo, Lata Lete, disse que tinha sobre os seus ombros uma responsabilidade para representar a população de Achada de Santo António, da cidade da Praia e de todo o país, razão pela qual entregou-se de corpo e alma à modalidade.
A nível internacional gaba-se de ter conquistado três provas de fundo na Guiné Bissau, com a particularidade de ter vencido duas corridas no Estádio Nacional Lino Correia no espaço de 24 horas, destronando o melhor atleta bissau guineense da época na sua própria terra.
Em Angola representou Cabo Verde no Meeting Internacional de Luanda e São Silvestre de Luanda e brilhou no Estádio dos Coqueiros, onde terminou as duas provas na quarta e quinta posição, respectivamente, não obstante ter enfrentado atletas de elites mundiais como quenianos, etíopes e russos.
Na antiga União Soviética, Zé Lata Lete representou Cabo Verde em 1980 na prova dos 10 Km, realizado para assinalar o ano dos os Jogos Olímpicos de Moscovo, e mostrou-se realizado por ter cortado a meta na pista de tartan do mítico Estádio Central Lenine, entre os melhores da actualidade da época, quando o país sequer sonhava com uma pista de tartan..
À espera do reconhecimento oficial
Hoje aos 70 anos, Zé Lata Lete recorda com uma mescla de saudade e mágoa as façanhas que fizeram dele o melhor atleta do país nessa época, já que apesar do reconhecimento pelos seus méritos, disse que continua a aguardar há cinco anos, “com alguma impaciência” por uma pensão do Estado aos desportistas de mérito.
Curioso é que Zé Lata Lete iniciou as suas pisadas no desporto como futebolista, numa altura na qual o relvado era uma utopia, já que todos os campos ou estádios do país eram de terras batidas.
Do futebol ao atletismo
Descoberto pelo atletismo por um atleta conhecido desta urbe que respondia por Capucá, o nosso entrevistado contou a CV Sports que no futebol chegou a representar os emblemas do Vasco da Gama e Estrelas Negra Grande, duas antigas equipa do seu bairro, que marcava presença assídua nos campeonatos de subúrbios.
Disse que foi “desviado” do futebol, curiosamente por um grande futebolista que deixou o seu nome no desporto-rei cabo-verdiano, Félix Gomes Monteiro, mais conhecido por Sr Té Enfermeiro, afirmando que viu nele as qualidades para singrar no mundo do atletismo.
“E não me arrependo, pelo contrário sou grato a este aconselhamento do Sr Té e à esta mudança de modalidade. Não fosse o atletismo, hoje eu não seria uma figura pública, reconhecida e popularizada, por todos os bairros por onde ando”, reconhece.
Zé Lata Lete abandonou a competição em 1980, aos 35 anos, altura na qual Elias Fernandes assumiu o trono.
Hoje em dia gaba-se das condições criadas para a prática da modalidade e incentivos que outrora não existiam, tendo destacado o Estádio Nacional em Achada de São Filipe, dotado de pista de atletismo de alto nível, como uma das grandes apostas da modalidade.
CV Sports/Jogo Limpo



