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A Tesla, o Contrato e a Nossa Responsabilidade Coletiva

A Tesla, o Contrato e a Nossa Responsabilidade Coletiva
Abel Bom Jesus- Antigo Ministro Agricultura STP


Há de chegar o momento em que, em São Tomé e Príncipe, será difícil encontrar pessoas dispostas a assumir cargos públicos com coragem, seriedade e espírito de missão. E isso não será por falta de capital humano, mas sim pela forma como tratamos quem tenta servir o país com honestidade.
Hoje decidi escrever sobre um tema sensível: o contrato com a empresa Tesla, que tem gerado tanto barulho. Integrei o Governo que assinou esse contrato. E não posso, em boa consciência, calar-me ou condenar o então Chefe do Executivo apenas porque os que estão lá hoje enfrentam dificuldades em lidar com a situação. Isso vai contra os meus princípios.
Quero dar o meu testemunho. Quando entrámos para o Governo, o país estava à beira de um colapso energético. Havia sérias dificuldades para garantir o fornecimento de energia à população. Ouvimos ideias, analisámos alternativas. Recordo-me de uma reunião do Executivo, que começou às 10h da manhã de sábado e terminou às 3h da madrugada de domingo. Vi no rosto do Primeiro-Ministro a angústia real de quem tinha o peso do país nos ombros.
Chegámos até a pensar em contratar uma empresa com navio-gerador — daqueles usados em plataformas petrolíferas — para atracar nas nossas águas e abastecer a nossa rede. Mas o custo era inalcançável. A dura realidade com que se depara quem governa este país é simples: gasta-se mais do que se arrecada, e vivemos dependentes da ajuda externa.
Foi nesse contexto que surgiu a possibilidade de um acordo com a Tesla. Patrice Trovoada, com o seu estilo direto e determinado que todos conhecemos, conseguiu abrir essa porta. A empresa instalou os geradores sem receber um único tostão na hora. E, em pouco tempo, houve melhorias reais no fornecimento de energia. O povo sentiu isso. E todos — todos! — aplaudimos.
Agora, surgem dúvidas sobre o contrato. Muito bem: se eventualmente houver cláusulas lesivas ao Estado, vamos renegociar. Sentemo-nos à mesa com seriedade. Mas é injusto apagar os feitos de ontem só porque os de hoje não conseguem dar continuidade ou encontrar soluções melhores.
Um país não se constrói com vinganças políticas, mas com memória, responsabilidade e diálogo.
Patrice Trovoada não é perfeito. Nenhum de nós o é. Mas devemos ter a decência de reconhecer o que foi bem realizado. E agora pergunto: onde estão os ministros, assessores e técnicos que participaram naquelas decisões? Onde estão os que celebraram os resultados e hoje preferem o silêncio?
Afinal, a Tesla agora já não vale nada? Já não serve? Ou será que há quem apenas queira tomar o controlo dos geradores deixados pelos americanos e criar empresas-fantasma para gerir à sua maneira e em benefício próprio?
Nos dois anos que estive no Governo, aprendi muito. Não sou melhor do que ninguém. Mas fico triste quando vejo que muitos que falam de união, não a praticam — nem nas coisas pequenas, quanto mais quando estão no poder.
No meu caso pessoal, fui afastado por não ceder a vontades individuais. Sempre procurei servir o bem coletivo. E continuo a acreditar que a política só faz sentido quando é feita com verdade, coragem e uma visão estratégica para o país — e não ao sabor de conveniências ou interesses pessoais.
Abel Bom Jesus

Publicado no Telanon

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