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Do campo de refugiados ao recorde no Mundial 2026: a viagem de Irankunda

Do campo de refugiados ao recorde no Mundial 2026: a viagem de Irankunda

Nasceu num campo de refugiados na Tanzânia, passou pelo Bayern, quase viu o sonho escapar e tornou-se o mais jovem australiano a marcar num Mundial

Quando Nestory Irankunda correu para festejar o golo frente à Turquia, na vitória da Austrália por 2-0, não celebrou apenas o primeiro passo dos Socceroos no Mundial2026. Celebrou uma vida inteira de superação.
Aos 20 anos, o extremo do Watford entrou para a história ao tornar-se o jogador mais jovem de sempre a marcar pela Austrália numa fase final de um Campeonato do Mundo. Mas a história de Irankunda começou muito longe dos grandes palcos do futebol.
Das guerras do Burundi à Austrália
Nascido a 9 de fevereiro de 2006 num campo de refugiados em Kigoma, na Tanzânia, Irankunda é filho de pais burundeses que fugiram da guerra civil que devastou o seu país. Poucos meses depois do nascimento, a família foi acolhida na Austrália, primeiro em Perth e mais tarde em Adelaide, onde o jovem encontrou no futebol uma nova forma de sonhar.
Quinto mais velho de sete irmãos, cresceu numa família apaixonada pelo desporto. Os irmãos jogavam futebol, faziam acrobacias e partilhavam o mesmo gosto pela competição. Irankunda, porém, parecia destinado a algo diferente.
O fenómeno de Adelaide
O talento começou a destacar-se desde cedo. Com apenas 15 anos estreou-se pela equipa principal do Adelaide United e rapidamente se tornou uma das maiores promessas do futebol australiano.
Velocidade, potência física e capacidade para decidir jogos transformaram-no num dos nomes mais falados da A-League. Os números confirmavam a sensação: 16 golos e oito assistências pelo clube australiano bastaram para despertar o interesse europeu.
No entanto, a ascensão também trouxe dificuldades. O jovem extremo teve problemas em lidar com a pressão mediática e com as críticas. Houve episódios de indisciplina e momentos em que o crescimento fora das quatro linhas não acompanhava o talento demonstrado dentro delas.
O sonho Bayern que não correu como esperado
Em 2024 surgiu o salto para o Bayern Munique. O campeão alemão investiu cerca de 3,5 milhões de euros para garantir uma das maiores promessas da Oceânia. A realidade revelou-se mais complicada.
Apesar de ter treinado com estrelas como Harry Kane, Irankunda nunca chegou a estrear-se pela equipa principal. O empréstimo ao Grasshoppers, da Suíça, também não trouxe o protagonismo desejado e o sonho começou a transformar-se numa luta pela sobrevivência desportiva.
Sem jogar regularmente, chegou a perder espaço na seleção australiana e até ponderou representar Burundi ou Tanzânia a nível internacional.
A aposta no Watford mudou tudo
Perante a necessidade de competir regularmente, decidiu deixar o Bayern e rumar ao Watford. A decisão revelou-se fundamental.
Na última temporada realizou 42 jogos pelo emblema inglês, marcou quatro golos e fez quatro assistências. Mais importante do que os números, voltou a ganhar confiança e recuperou o estatuto junto dos responsáveis da seleção australiana. O Mundial voltou a parecer possível.
O dia em que entrou para a história
A recompensa chegou em Vancouver. Frente à Turquia, Irankunda recebeu pela esquerda, acelerou sobre a defesa adversária e finalizou com qualidade para abrir caminho ao triunfo australiano por 2-0. O golo valeu-lhe um lugar na história: tornou-se o mais jovem jogador australiano a marcar numa fase final de um Campeonato do Mundo e o primeiro futebolista nascido fora da Austrália a marcar pelos Socceroos num Mundial.
A celebração também não foi escolhida ao acaso. Correu para a bandeirola de canto e imitou o famoso gesto de Tim Cahill, considerado por muitos o maior jogador da história da seleção australiana. «Tim Cahill é a minha maior inspiração. Se marcasse, queria festejar como ele», explicou no final da partida.
Há apenas um ano, Irankunda procurava desesperadamente minutos para não falhar o Mundial. A sua história já é uma das mais inspiradoras desta edição da prova: de um campo de refugiados na Tanzânia aos relvados de um Campeonato do Mundo. E, aos 20 anos, tudo indica que o capítulo mais importante ainda está por escrever.

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